Wednesday, August 03, 2011

No Encantamento Perdido


Tenho que tornar pequeno, tenho que tornar tão miúdo, que não mais sinta falta ou faça sofrer. Tenho que banalizar as lembranças e os estados de céu onde já estive, pois não existe mais céu e sim a queda. Não quero mais me lembrar do alto nem do frio, da viagem vertiginosa de três horas, quero que morra estas lembranças. Não quero lembrar mais da surpresa, quero que aquela surpresa morra. Não quero mias sentir pela falta das conversas com vontade, não quero. Nem das declarações superficiais que antes pareciam tão profundas, eu não quero. Eu quero ser simples e só outra vez, pois a falta do que não se tem é bem mais fácil de lidar do que a falta do que se teve e lhe foi tirado. Nem quero mais me lembrar deste encantamento, agora perdido.  Quero que se perca junto com ele, todas as lembranças e o sentido que ele tem agora, tão amargo. Era tão cedo pra tudo se transformar em desinteresse. É tão tarde agora, eu me sinto tarde. Mas talvez ainda haja tempo pra dizer – eu não quero. Talvez morrer como um pássaro, de uma flor na boca, como cantou Cecília Meireles:

Pássaro

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

 Eu: 3,5 (Sozinho mesmo acompanhado). 
Mundo: 5,0 (Bem maior do que posso lidar...)




Sunday, August 08, 2010

Na Dolorosa Austeridade

Dói ser austero, digno e limpo. Dói ser um homem, diante de tanto vazio. Ter que endurecer, dói. Mas na maturidade, cai aquela casca feia da qual estava secamente acostumado. Por isso quero dizer que sou dor em muitos sentidos, mas sou novo em todos os outros que restam.
É meia noite e fico pensando em justiça e bonança. Não seriam essas as recompensas de quem foi fiel a si mesmo, e por um momento de feliz descaso, acreditou que a Beleza era reflexo da Felicidade?
Por isso vou meio que dormir cantando uma canção de Carlos Drummond de Andrade. E viva a madureza.


A INGAIA CIÊNCIA

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Eu: 10 ( Cheio de dores, mas imensamente livre)
Mundo: 5,0 (de mãos e boca fechados)

Monday, January 28, 2008

Que Hoje É Meu Aniversário

De vez em quando sonho com este presente.
Olho pela janela, e está chovendo lá fora, ainda.
Quase que sinto o cheiro molhado das ervas do jardim
E escuto minha mãe cantarolando na cozinha.
Ao meu lado, meu amor dorme abraçado ao travesseiro
E todas as outras coisas não têm mais importância.

Aniversário com meus amigos, com a pessoa que amo:
Pra que mais?

Olhou para o jardim, neste sonho de chuva, Cecília Meireles:


O Canteiro está Molhado
O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças...

Eu: 9,0 (mais velho e mais feliz)
Mundo: 10,0 ( lindo e cheio de esperanças...)

Tuesday, January 08, 2008

Em Quando o Ano Foi Embora

Não tenho mais tantos sonhos quanto antes,
Obra da maturidade.
Deixei de sentir falta de coisas que se foram,
Deixei-as ir para o meu bem -
Agora só saudade.
Tudo isso entre onze horas e meia noite,
Sentado ao lado do que chamo de amor.

Começo o ano me sentindo só,
Sem culpar a ninguém por isso –
Até por que ninguém pode me ver realmente
Do jeito irremediável e tolo que sou.

Constatação, como disse Drummond quando escreveu:


A Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
São golpes, são espinhos, são lembranças
Da vida a teu menino, que ao sol-posto
Perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
À hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
A noite acumulada de meus dias,
E sinto que estou vivo, e que não sonho.



Eu: 7,5 (cheio de pausas)
Mundo: 7,5 (instável e obscuro...)

Monday, January 07, 2008

Do Dia Que Não Deixei a Tristeza Vingar

Parece até uma historinha:

Estava triste pra caralho...
O ano começou, muita coisa pra fazer, tanto caminho que não sei onde vai dar...
Super travado ainda, parece que é 1875, ou qualquer coisa do século passado!
E ainda outra noite estranha e cheia de seqüelas...
(putz...)
Daí pensei, sem muito refletir, e sem querer dar recado pra ninguém:
Posso até ficar triste, mas passa.
E fiquei tranqüilo (acho que isso e ser zen...)
Amo o meu amor até quando eu puder e o resto, que seja.

Sem preço é viver assim, como canta Mário Quintana, sem pensar no relógio.
Feliz é quem canta com ele.

Feliz Ano Novo, e não pensem nos relógios.

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...





Eu: 9,0 (Me forçando a não forçar)
Mundo 10,0 (Lindo e não cabe, inteiro, em minhas mãos. Então seguro onde dá pra segurar)


Saturday, August 25, 2007

Que Salvei o Mundo

Salvar o mundo.
Coisa para os fortes, ou para os fracos?
Ontem eu salvei mais uma vez o mundo.
Meu super-poder é a ignorância de laboratório
E um sorriso constrangido que diz “tudo está bem.”
Não quero mais salvar o mundo.
Queria ser salvo, desta vez queria ser salvo
E não mais chorar sorrindo.

Quem sabe o que é salvar a tudo, menos a si próprio?
Annie Lennox sabe:

I Saved The World Today
Monday finds you like a bomb
That's been left ticking there too long
You're bleeding
Some days there's nothing left to learn
From the point of no return
You're leaving


Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone awayAnd everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay


There's a million mouths to feed
And I've got everything i need
I'm breathing
And there's a hurting thing inside
But I've got everything to hide
I'm grieving

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay



Eu: 3,0 (outra guerra silenciosa comigo mesmo – mas mundo salvo)
Mundo: 10 (acabou de ser salvo, portanto está novo).

Monday, August 13, 2007

Da Tristeza Involuntária (juro que não queria assim...)

Não nego a felicidade, mas não posso evitar a tristeza. Tudo é acúmulo e minhas costas pendem pra baixo. Queria não ser assim, pesado. Tenho um amor que merece a leveza das borboletas e dos sorrisos que as crianças exalam de graça. Queria dar isto a ele, ao passo que respiro. Por isso choro.
Temo cansar o mundo e o meu amor com todo este peso.
Por isso choro.

Disse Vinícius de Moraes - acho que ele chorou também.

Dialética


É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


Eu – 5,0 (por que choro e estou triste)
Mundo –
8,0 (Parte curada de mim)

Friday, August 10, 2007

Pungente

Dia de correria, de espera e de solidão.
Cansaço por dentro e por fora, parece que horas morreram dentro de mim.
Hoje não suporto nem a gota que transborda o copo
que está vazio.


Grita Fábio Furtado:

Não há acordo com os mortos:
da túnica inconsútil restaram apenas os alinhavos,
da romã, um gosto amargo,
na cristaleira, um copo lascado,
acionando a dissolução de terrinas e taças, de bibelôs e baixelas.
Não há memória para a primeira dor.
Sem notas hoje.
Estou um saco.

Tuesday, July 03, 2007

Em Dois

Qual é o poder de dois?
Maior do que o de um? De uma multidão?
Poder de um sobre o outro, esse é poder de dois?
O medo de um é o medo do outro, poder de dois?
O cansaço de um é o cansaço do outro, é o poder de dois?
Sede de abraço, do poder que tem dois sobre o mundo e dos demais?

Dois podem vencer, essas ilusões cheias de cor?
Vãos os dois acreditar neles?

Eu queria o poder de dois, esse que Emily Saliers fala em Power of Two.


Agora o estacionamento está vazio,
Todo mundo foi pra algum lugar...
Eu pego você, e no baú eu empacoto
Roupa pra dois dias e um cooler.
Porque há um lugar onde a gente gosta de dirigir
Pelo país adentro
E cinco milhas fora da cidade,
Estamos cantando,
Sua mão por sobre meu joelho.

Então estamos ok
Estamos bem.meu amor eu estou aqui para por fim ao choro.
Espantar os fantasmas de sua cabeça.
Sou mais forte do que o monstro embaixo da sua cama,
Mais esperto do que as peças pregadas pelo seu coração.
Encaramos os problemas juntos e juntos resolvemos eles
Somando todo o amor que é verdadeiro
Multiplicando vida com o poder de dois.

Você sabe das coisas que eu tenho medo
E não tenho medo de dizer
Se ainda deixarmos um legado,
Terá sido como nos amamos um ao outro
Porque eu tenho visto sombras de tantas pessoas
Empenhadas nos tesouros da juventude
Mas isso é uma estrada fantasiosa e rápida
Que termina em acidente fatal
E eu estou feliz por estarmos fora disso,
Pra lhe dizer a verdade

porque estamos ok
Estamos bem.meu amor eu estou aqui para por fim ao choro.
Espantar os fantasmas de sua cabeça.
Sou mais forte do que o monstro embaixo da sua cama,
Mais esperto do que as peças pregadas pelo seu coração.
Encaramos os problemas juntos e juntos resolvemos eles
Somando todo o amor que é verdaeiro
Multiplicando vida com o poder de dois.

Todas as tentações brilhantes
(faça novos amigos)
Algo novo no lugar do velho
(mas conserve os antigos)
Tudo o que você consegue é apenas aranhar a superfície
(mas lembre-se do que é ouro)

e é ouro de tolo
(o que é ouro)
ouro de tolo
(o que ouro)
ouro de tolo
agora estávamos falando de uma coisas difíceis

e seus olhos estavam cheios de lágrimas
eu amparo a gente nos tempos bons e nos ruins
nem pense em esquecer
agora as barras de aço que me prendiam a uma promessa
subitamente cedem com facilidade
quanto mais preso estou ao seu amor
mais perto estou da liberdade


Mundo: 6,0 (cores diferentes que não conheço)
E
u:6,0 (só, sem o poder de Dois)

Wednesday, June 27, 2007

Um intruso que pretende ficar

Meu amor nunca acaba, é sempre um rio onde as águas correm, nem sempre calmas e límpidas é verdade, mas sempre se renovando e limpando o caminho que percorrem.

Quando outros rios me cruzam trazem certezas, incertezas e um novo sentimento. Meu rio encontrou o seu é indubitável isso, e esse amor também assim é?

Desculpa a invasão, como tantas outras, é uma forma de me sentir na tua vida, dentro de você, é minha forma, sempre aberto para você, os braços, os olhos, o coração, eu.

Tenho certeza de ter cruzado com água certa... Uma vez li por aí que quando o amor acaba, um anjo perde as asas e cai do céu. Triste, passa o resto de sua vida andando a esmo, vestindo trapos, carregando o arco quebrado e as flechas sem pontas.

Nosso anjo (espero muito) vai ser sempre forte e lindo, como você é!

Te amo

Olavo Bilac me diz:

"Ora (direis) ouvir estrelas!
CertoPerdeste o senso!"
E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora:
"Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


Eu: 7 Zilhões (Cada vez mais apaixonado e feliz)
Mundo: 7 (Inseguro, com medo e muito amado)



Tuesday, May 29, 2007

Nesta Preparação

O medo do não-amor me acordou essa noite, e eu lembrando do que ouço, espantei pra lá um bilhão de fantasmas que me espetam o cotidiano.

Amo, e assim, sou inteiro.
Sempre perplexo do tanto que amo.
E sempre consciente pra onde vai esse amor.

Amo, e por enquanto sou Eterno,
Daqui nada se apaga.

Amo o meu amor de sete cores, todas verdes.

Canta Cristina Guedes,
pois me preparo a cada dia amar melhor.


PREPARAÇÃO

Agora que me percorres
perco um pé provisório
onde aponta esta bússola
para norte (di) verso
agora que me restauras
com ruínas de sombra e risco
busco o dia das cidades
em tempos imemoriais
do teu itinerário
o movimento constatado
o medo em terra firme
a dor de estar eu livre.

Eu: 8,0 (Com medo e pleno - Doce e amargo)
Mundo: 10,0 (Verde e lindo, um caleidoscópio que agarro com os olhos).

Thursday, May 10, 2007

Em Um Certo Medo.


O outono vem antes do inverno, e o inverno é o fim. Mas depois do fim, tem sempre o recomeço. O amargo e o doce. Passa agora uma tempestade dentro das janelas, não fora, como se pudesse, protegido, olhar pra ela: lá fora tem tanta coisa pra eu cuidar como deve ser feito, mas a ventania daqui de dentro de vez em quando me cega e me diz coisas que eu sei mas não quero escutar. Luto pra não deixar levarem meu jardim, nem minha cerca nem meu sol -por que lá fora faz sol, sim.

Certo em parte e talvez em outra hora, em todo, Mário Quintana, que um dia cantou assim:


CANÇÃO DE OUTONO

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!



Eu: 2,0 (Tentando e não conseguindo...)

Mundo: 10,0 (Brilhando, lá fora...)

Friday, April 27, 2007

No Amor e no Éter

Por onde anda meu lugar entre o meio-dia e as duas da tarde?
Lá tudo é sono, beijo e abraço.

Já dizia Adélia Prado, enquanto observava os minerais voarem ao seu redor:


O AMOR NO ÉTER


Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam: como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.


Eu: 9,0 (Entre o meio-dia e as duas da tarde )
Mundo: 8,0 (falta chover pra eu dormir)


Wednesday, March 07, 2007

Mais Leve?

Da leveza, talhada pelo cotidiano, mais leve.
Leve, até na apreensão e no medo, de leve.
Leveza na criação, no aperto do abraço, e leve.
(...)
Eu, o ser passante, amargo e, leve?
Hoje ensina Cecília - leve.


Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.


E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.


E o que lembra,
ouvindo-se deslizar seu canto,
mais leve.


E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.


E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


Cecília Meireles


Eu: 6,0 (Queria estar mais leve... mas não consigo)
Mundo: 6.0 (Pesado até um instante atrás... mas um dia também será leve...)

Thursday, February 22, 2007

Já Passou?

Onde que nem vi? Por onde escorreram estas horas, que ainda sinto coloridos mãos e dedos e com cheiro de ontem, ainda estão eles? E se já passou, pra onde foi? Não sinto telegrama, nem fumaça, nem aviso de partida, nem que por um presságio: Sou cético com essas horas perdidas. Juntas, elas formam dias que viram meses, e depois traiçoeiros anos perdidos. Já se foram? Choro agora essas horas que passei com sal no vento e na pele, com o sol sempre me abraçando e me perguntando: pra onde vão todas essas horas? Deve ser um lugar muito grande, pois agora nem mesmo cabem em mim.

Esse Tempo tão caprichoso, como cantava Adélia Prado:

Tempo


A mim que desde a infância venho vindo
Como se o meu destinoFosse o exato destino de uma estrela
Apelam incríveis coisas:
Pintar as unhas, descobrir a nuca,
Piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempoVão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
Mulher ocidental que se fosse homem
Amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
De mil novecentos e setenta e seis,
O céu é bruma, está frio, estou feia,
Acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.


Eu: 9,0 (Feriado acabou - desoriento-me cheio de propósito, depois tudo no lugar de sempre)
Mundo: 10,0 (Tá frio hoje, como se chovesse dentro e fora: bom pra dormir centenas de anos)

Wednesday, February 07, 2007

Nos Amigos e Nestas Flores

Quebrando a ordem:

Amigos

Os amigos são como flores:
Não tenho pressa em colhê-los
Nem mesmo no frescor desta
Manhã de primavera.

Pois de pétala em pétala
Destes dias felizes
Sentir seu cheiro me basta.

E se morrem, durante o inverno,
Meu coração se abre
E minhas asas crescem:
Vôo para o sul, juntos com estes pássaros verdes,
Com os olhos cheios de esperança
E os bolsos cheios de sementes.

Saulo Matias

A estes amigos ou a estas flores presto toda a alegria de minha vida e toda aquela que ainda hei de ter, seja amanhã, sendo breve, ou daqui há muitos séculos, quando a sombra desta e outras lembranças pousarem eternas entre o universo e o infinito. A todos meus amigos que hoje tenho em ramos que já floriram, e outros que só sinto o cheiro – as pétalas já se foram - este espaço.

Eu: 9,0 (Sorte por ter amigos, sorte mesmo)

Mundo: 10,0 (cheio de antigos, novos e futuro amigos)

Sunday, February 04, 2007

Falta? Não Falta?

O que sinto falta morre há tempos - morre de bom senso, de maturidade e na discórdia entre o querer e o poder. O que sinto falta resiste moribundo de vergonha - não se encaixa nesse mundo desde que nasceu e morre de infinitas constatações.
Ausência de mim mesmo - é de mim que sinto falta: tento não saber que não volto mais.

Drummond caminha comigo pela Ausência:


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência,
Essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

Eu: 8,0 (Ausente - é só deixar recado)

Mundo: 8,0 (Translação e Rotação, é a gente ficando mais velho e mais ausente...)

Nas Esperanças Plantadas



Soube que o amor vem sem pressa, que cresce delicioso por cada fresta sem defesa de nossas almas. Se por um acaso encontra resistência ( e sempre encontra, o amor), descansa ali, e espera até que possa seguir. O amor é urgente, mas plácido. Tem a delicadeza da germinação, mas a força das raízes que buscam o infinito da terra fecunda. Tem pressa em ser amor, mas depois que se torna, segue calmamente seu curso em direção ao topo. Cresce pra cima, no sonho da copa frondosa, e pra baixo, na solidez dos alicerces de seiva e madeira. O amor é urgente só agora, depois se deita descompromissadamente naquela sombra - e nas sombras dos amantes.
Cecília canta e me convida a passear por estes campos com a cabeça cheia de sonhos e os bolsos cheios de sementes:

PLANTAREMOS ESTES ARBUSTOS

Plantaremos estes arbustos
que darão flor apenas
daqui a três anos.
Plantaremos estas árvores
que darão fruto um dia,
mas só depois de dez anos.
Não plantaremos jardins de amor,
porque imediatamente
abrem tristeza e saudade.
Não plantaremos lembranças
porque estão desde já e para sempre
carregadas de lágrimas.


Cecília Meireles

Eu: 8,5 (Um dia paro de me importar se estou naquele lugar onde estão todos os outros)

Mundo: 7,0 (Pronto, quando cheguei - mas tenho que me preocupar também com o meu, infinitamente inacabado)

Monday, January 29, 2007

Lista Que Janeiro Me Trouxe


Muito obrigado ao Mundo de agora por fazer de minha vida a Minha Vida.


  1. Uma nova e grande janela para novas perspectivas
  2. O Cheiro das Coisas Boas da Vida

  3. Novos e maravilhosos amigos

  4. A Fome e a Vontade de Comer

  5. Novas poesias – Estas ainda nascem toda hora

  6. Manhãs antigas com gosto de flor e de amor

  7. Vontade

  8. Regras que foram feitas exclusivamente para serem quebradas

  9. Horas que se passam como segundos ( o que torna cada uma delas preciosa)

  10. Uma nova estrada cheia de perigos, mas verdadeira.


Eu: 7,0 (Esperando o dia terminar pra ver se começa outro melhor...)

Mundo: 8,0 (Maravilhoso por ter me dado tantos presentes)

Em Todos os Medos



Medo de quê? De mim mesmo. Do que me transformo, e de repente, me transformo de novo. Do que sinto e de repente, o medo de não sentir mais. Não nos outros, nem dos cenários que perdem a cor para ganhar outras e das quais tenho que me acostumar. Medo das construções, das desconstruções, da reconstrução, eu tenho medo. Existe uma alma desesperada que ganha ritmo de fera quando me apavoro e que reconheço quando olho no espelho, e que eu tenho medo.



Tenho medo de ficar de pé, pois daqui vejo séculos inteiros de céu e de mar, e destes, mesmo que desconhecidos, não tenho medo.



Cecília me dizia ao pé do ouvido:





Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.






Eu: 6,0 (Coração apertado e alma imensa: dolorosa desproporção)

Mundo: 8,0 ( Guardado nele mesmo, sem pistas de como abri-lo)