Wednesday, August 03, 2011

No Encantamento Perdido


Tenho que tornar pequeno, tenho que tornar tão miúdo, que não mais sinta falta ou faça sofrer. Tenho que banalizar as lembranças e os estados de céu onde já estive, pois não existe mais céu e sim a queda. Não quero mais me lembrar do alto nem do frio, da viagem vertiginosa de três horas, quero que morra estas lembranças. Não quero lembrar mais da surpresa, quero que aquela surpresa morra. Não quero mias sentir pela falta das conversas com vontade, não quero. Nem das declarações superficiais que antes pareciam tão profundas, eu não quero. Eu quero ser simples e só outra vez, pois a falta do que não se tem é bem mais fácil de lidar do que a falta do que se teve e lhe foi tirado. Nem quero mais me lembrar deste encantamento, agora perdido.  Quero que se perca junto com ele, todas as lembranças e o sentido que ele tem agora, tão amargo. Era tão cedo pra tudo se transformar em desinteresse. É tão tarde agora, eu me sinto tarde. Mas talvez ainda haja tempo pra dizer – eu não quero. Talvez morrer como um pássaro, de uma flor na boca, como cantou Cecília Meireles:

Pássaro

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

 Eu: 3,5 (Sozinho mesmo acompanhado). 
Mundo: 5,0 (Bem maior do que posso lidar...)




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