Um beijo dura eternamente, depois se vai. Vai na frente das pernas, limpando a poeira morta sobre os desejos descoloridos, mas que são imortais. Faz tocar música e eu penso de onde vem, se nem o barulho das buzinas nervosas ao meu redor, ouço com clareza. Talvez venha do aveludado sentido de ser redescoberto por mim mesmo e saber que a vida segue, mansa mas implacável com novas repetições. São de água morna meus pensamentos, e das lembranças dos dias mornos, da rotina boa e dos ventos novos que sopram à minha frente. Talvez seja de Mário Quintana a música que tocam e ouço deliciosamente me sentindo ora de alguém, ora unicamente de mim?
I
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana - A Rua dos Cataventos
Eu: 9,0 (Devagar e sempre, seja pra onde for).
Mundo: 9,0 ( Imenso, relutante e delicioso).
Mais do que nunca, enquanto isso, eu penso...
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