Ontem sonhei que você estava lá do outro lado da rua, e que você era um chuchu cozido, muito macio. E era de lá que você acenava, todo vestido de verde, engomado, parecendo um pastor. Tu estavas muito exigente, com cara de quem tinha altas expectativas dos próximos capítulos, e olhe que a novela nem tinha começado. Neste sonho você era um chuchu e aparecia cheio de medos, arrependimentos e culpas, disfarçados de gentileza e elogio. Os passantes faziam ares de reprovação, como se soubessem de tudo. Mas talvez o chuchu estivesse ferido, e com medo da solidão. Porra de sonho doido. Ou doído, porque ele doeu a noite inteira. Era tarde na rua, chovendo, o chuchu acenava do outro lado, eu passava distraído olhando as vitrines, veja só. Eu ainda não sei porque atravessei pra ir falar com você, um chuchu vestido de verde, cozido e macio. A rua estava uma bagunça, como são típicos em sonhos. Nus, no asfalto, "poréns" disfarçados de coincidências - terminei sujando minhas botas novas, que por sinal eram lindas e elegantes, feitas para pisar em terras de sonho de qualquer natureza, botas 4X4. As dúvidas, saiam como ratos dos boeiros e do céu a água da chuva cheirava a carência e a outros bichos selvagens e egoístas, dos quais eu também tinha uma meia dúzia guardados debaixo de sete capas de chuva. Lá ia eu, botas molhadas desviando de carros, atravessando a rua pra me encontrar com um chuchu. Daí uma droga de ônibus me atropelou. Ví de relance que era um ônibus grande, destes que não gostam de ruas apertadas, mas de avenidas largas e bem iluminadas. No letreiro lia-se " Centro - Realidade (passando pelo Engano)". Terminei desistindo de ir até o chuchu pra pegar aquele ônibus dos diabos. O chuchu que me apareça menos espalhafatoso em outro sonho. Ah, e em dia de semana, porque sábado e domingo eu não sonho, eu vivo - de preferência escutando uma música de Chico Buarque.
Não Sonho Mais
Hoje eu sonhei contigo,
Tanta desdita! Amor, nem te digo
Tanto castigo que eu tava aflita de te contar.
Foi um sonho medonho
Desses que, às vezes, a gente sonha
E baba na fronha e se urina toda e quer sufocar.
Meu amor, vi chegando
Um trêm de candango
Formando um bando,
Mas que era um bando
De orangotango pra te pegar.
Vinha nego humilhado,
Vinha morto-vivo, vinha flagelado.
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo pra te esfolar.
Quanto mais tu corria
Mais tu ficava, mais atolava,
Mais te sujava. Amor, tu fedia,
Empesteava o ar.
Tu que foi tão valente
Chorou pra gente. Pediu piedade
E, olha que maldade,
Me deu vontade de gargalhar.
Ao pé da ribanceira acabou-se a liça
E escarrei-te inteira a tua carniça
E tinha justiça nesse escarrar.
Te "rasgamo" a carcaça
Descendo a ripa. "Viramo" as tripas,
Comendo os "ovo", ai!,
E aquele povo pôs-se a cantar.
Foi um sonho medonho,
Desses que, às vezes,
A gente sonha e baba na fronha
E se urina toda e já não tem paz.
Pois eu sonhei contigo e caí da cama.
Ai, amor, não briga! Ai, não me castiga!
Ai, diz que me ama e eu não sonho mais!
Eu: 8,0 (Reciclando pesadelos)
Mundo: 5,0 (Um sonho falsificado de déjavù)

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