Thursday, May 09, 2013

Nas Coisas Boas Que Não Vieram



Coisas ruins acontecem. Às vezes aconteceram coisas muito boas antes, e daí você não se importa tanto com a chegada das ruins. Que seja algo de compensação, né. Nem trudo são flores e por aí vai. Mas tem vezes que as coisas não-boas vêm em bando e lhe tomam de assalto.

Mesmo de naturezas diferentes, elas se juntam lá no fundo e começam a doer em uníssono.

Elas têm nomes diferentes, vêm de lugares diferentes e distantes, mas se indentificam entre si - comem de sua luz e de sua verdade, esvaziando aquilo que você guardou com tanto empenho, sua esperança.
Não são tolos os que desanimam, nem os que desistem. Apenas estão cansados e não sabem pra onde ir, pois todo caminho é errado.

Coisas ruins acontecem, mas de vez em quando a balança quebra. Não há coisas boas pra comemorar e renovar o suspiro leve que temos, quando dizemos a nós mesmos "vai passar".
Mesmo com maturidade, não é fácil manter-se inteiro, otimista. Mesmo quando ouvimos, lemos, nos repetimos que as coisas ruins acontecem assim como as coisas boas e que podemos, no fim das contas, ter vivido alegremente.


Eu Podia Ter Vivido Alegremente

(Mihály Ladányi)

Eu podia ter vivdo alegremente
porque para isso tinha aptidão,
tinha a noite serena
e passava horas inteiras sem chorar.
Agora as noites lançam-me um nó corredio
e as minhas artérias apertam-me a garganta.

Se sou amargo, quem me faz amargo?
Vivo a minha vida,
tenho sempre pão e amante
e o vinho nunca escasseia no meu copo.

Já não estou só e abandonado, como os que gesticulam e suam,
os das palmas das mãos feitas de lata,
os que dormem em colchões húmidos.
Quando sigo pelas estradas
e numa taberna - onde se juntam camponeses -
me abeiro do balcão,
não há leis que digam
que para sempre ali devo ficar
ou chegando a manhã
de novo devo tomar a direcção da estrada.

Podia ter vivido alegremente
mas os pássaros aninham as suas crias
nas palmas da minhas mãos
e alguém atou aos meus pés
os caminhos.
Podia ter vivido alegremente
mas agora as casas constroem-se em mim
e retumbam em mim na sua destruição.
Sou de alguma coisa o instrumento,
sinto sempre sobre mim o grande olho ardente
e vou por aqui e por ali, à deriva, embora
pudesse ter vivido alegremente.

Eu: 7,0 (Lidando com meus monstros)
Mundo: 4,0 (Puta-Que-Pariu...)




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