Tuesday, January 31, 2006

Cecília Meireles em Dois Momentos

Sou louco por poesia. E Cecília e sua música são imbatíveis, quem quiser que diga o contrário. Hoje, dois momentos tão diferentes - e tão fascinantes – de sua música disfarçada de poema. Notem sua beleza, em lados opostos do coração humano.

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso, p
ara fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.



Os Dias Felizes

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:
viajam nas nuvens,
correm nas águas,
desmancham-se na areia

Todas as palavras são inúteis,
desde que se olha para o céu.

A doçura maior da vida flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos,
no largo círculo dos dias sossegados.

Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:
formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.


OS PASSARINHOS É QUE SÃO FELIZES.

Eu: 7,0 (aquele maraaaaaaaaasmo...) Mundo: 7,5 (aquele outro maraaaaaaaasmo...)

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