Sunday, August 08, 2010

Na Dolorosa Austeridade

Dói ser austero, digno e limpo. Dói ser um homem, diante de tanto vazio. Ter que endurecer, dói. Mas na maturidade, cai aquela casca feia da qual estava secamente acostumado. Por isso quero dizer que sou dor em muitos sentidos, mas sou novo em todos os outros que restam.
É meia noite e fico pensando em justiça e bonança. Não seriam essas as recompensas de quem foi fiel a si mesmo, e por um momento de feliz descaso, acreditou que a Beleza era reflexo da Felicidade?
Por isso vou meio que dormir cantando uma canção de Carlos Drummond de Andrade. E viva a madureza.


A INGAIA CIÊNCIA

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Eu: 10 ( Cheio de dores, mas imensamente livre)
Mundo: 5,0 (de mãos e boca fechados)

2 comments:

Ana Duarte said...
This comment has been removed by the author.
Ana Duarte said...

Saulo, estou extasiada com o que acabei de ler! Vc é de uma sensibilidade extraordinária. Me vi em suas palavras! Adoro poemas, estárei sempre por aqui, prestigiando seu talento.Big beijo